Como conseqüência do trabalho de Geert Hofstede, que propôs seu modelo de cinco dimensões culturais como uma forma de operacionalizar o conceito de cultura, diversos autores envolvidos com usabilidade e design de interfaces passaram a ter uma base sobre a qual trabalhar. Diferentes abordagens são encontradas, desde a tentativa de uma outra operacionalização como o uso das dimensões culturais de Hofstede na avaliação de interfaces Web.

Culturabilidade de Badre

A associação de cultura à usabilidade foi abordada por Albert Badre e Wendy Barber em 1998, quando foi cunhado o termo Culturability. Badre voltou a publicar trabalho nesta linha em 2001, desta vez co-assinado por Sharon Laskowski. No desenvolvimento do trabalho são definidos Cultura, Marcadores Culturais (Cultural Marker), Domínio de Gênero/Conhecimento (Genre/Knowledge Domain), sites Culturalmente Rasos versus Culturalmente profundos (Culturally Deep vs. Shallow Sites).

“The Cultural Context of User Interface Design” e “Cultural Cues and the World Wide Web” são dois projetos conduzidos dentro da linha de pesquisa de HCI na GEORGIA TECH por diversos pesquisadores, liderados por Badre. O primeiro, do qual participam Albert Badre e Wendy Newstetter, tem como premissa que a interpretação contextual de “pistas” ou indicadores obtidos através da experiência cultural e de linguagem afeta o grau de facilidade com que uma pessoa pode aprender, usar e interagir com a interface de sistemas de software. O projeto tem três objetivos:

  • Identificar indicadores contextuais culturais significativas que estejam longitudinalmente imbrincadas (embedded) nas percepções e comportamentos das pessoas
  • Particularizar os indicadores identificados para culturas-línguas específicas;
  • Estudar os efeitos dos indicadores identificados no desempenho interativo de usuários.

O segundo projeto, com a participação de Albert Badre, Wendy Barber, Wendy Newstetter, e Teresa Ann Hubscher-Younger, tem como objetivos de longo prazo primeiramente identificar e estudar padrões de design (design standards) e convenções que distinguem culturas como manifestadas nas páginas Web existentes e, em segundo lugar, entender como a influência cultural leva a variações nos comportamentos e práticas das pessoas e como essas variações deveriam ser levadas em consideração no design para a Web. Este projeto é patrocinado pelo NIST – National Institute of Standards and Technology. Diversos aspectos são considerados nessa linha de contextualização cultural da usabilidade de páginas Web:

  • Interações não-verbais de comportamento/comunicação, gestuais/faciais;
  • Padrões de pensamento, lembrança, conotação e categorização;
  • Cor, nomeação de cor, preferência por cor;
  • Geometria, percepção de profundidade, estulo;
  • Ícones, fotos/ilustrações, símbolos;
  • Visualização/verbalização;
  • Diferenças individuais;
  • Linguagem/escritos/sistemas de escrita/hábitos de leitura;
  • Formatos national/padrões (normas);
  • Aprendizado/busca por informação.

Ambos projetos guardam semelhanças com o trabalho de Hofstede, citado nominalmente no livro de Badre “Shaping Web Usability”, no sentido de simplificar, ou modelar, cultura em “marcadores culturais” e “indicadores culturais”, reduções possíveis de uma realidade complexa.

Avaliações de Evers

Vanessa Evers é pesquisadora do laboratório de estudos humano-computador do departamento de psicologia na Universidade de Amsterdã. Desde 1997 vem avaliando as implicações culturais no design de interfaces gráficas digitais, tendo baseado seu trabalho fortemente na dimesões culturais de Hofstede.

Um de seus estudos (EVERS, van DAM, ARTS, 2000), em co-autoria com o consultor Nik van Dam e a também pesquisadora Florann A. Arts, examinou a influência da cultura na experiência do usuário de serviços locais de governo eletrônico, trabalhando com a hipótese de que diferenças culturais levam a diferentes problemas de uso. Dentre os achados verificou que os problemas encontrados variaram entre os grupos culturais e que os resultados são consistentes com os dados empíricos da literatura (Hofstede, p.ex.), ressaltando, porém, ser essencial determinar o verdadeiro passado cultural dos sujeitos pela avaliação de associações culturais de valor, em vez de inferi-las das evidências gerais sobre culturas nacionais.

Em outro estudo (EVERS, 2002), que investigava as diferenças culturais no entendimento de elementos (símbolos) do website de um campus virtual, confirmou a existência de diferenças no entendimento de símbolos entre os grupos culturais, mas ressaltou, mais enfaticamente, que a utilidade das variáveis culturais (Hofstede, p.ex.) na interpretação das respostas de usuários a elementos gráficos parece ser mais limitada do que se esperava originalmente. Sugere que essas variáveis possam ser mais bem utilizadas na formação de uma descrição da cultura a ser estudada, o que pode ser usado para o desenvolvimento de instrumentos de pesquisa e coleta de dados sobre culturas. Também chama atenção para o fato de que diferenças nas orientações culturais nem sempre combinam com o comportamento cultural derivado de estudos antropológicos, não sendo possível sugerir fortemente que os traços culturais sejam o maior fator de influência.