Quantas vezes já ouvi e proferi essa frase! Não só programas, mas diversos outros produtos, físicos ou virtuais, se mostram quase impossíveis de usar.  Será só incompetência?  Faltou o trabalho de um designer? Não conheciam ergonomia? Talvez porquê o problema seja mais complicado... Vamos ver porquê designers com conhecimento de ergonomia são praticamente indispensáveis para qualquer produto pelo menos medianamente sofisticados.

A escalada artificial

Nos primórdios da civilização, quando um ser humano precisava de um utensílio ele mesmo procurava uma pedra e a lascava, adaptando-a eventualmente a um galho que servisse de empunhadura.  Ele escolhia a pedra, o galho e os modificava de acordo com suas necessidades e capacidades.  Uma longa seqüência de sofisticações e exigências de desempenho, precisão e velocidade foram tornando a criação do instrumento cada vez mais distante do seu usuário.  O refinamento do instrumento passou a exigir mais habilidade de quem o produzia, uma habilidade diferente da de quem o usava.

Num outro momento, aquele que produzia utensílios precisava usar ferramentas, fosse para corte, desbaste ou fixação.  Estas também foram se tornando sofisticadas.  Os artesãos mais preparados ensinavam a seus discípulos não só a arte da produção dos utensílios, mas também de suas ferramentas de trabalho.  Mais do que isso, a criação dessas ferramentas passou a exigir o uso de outros instrumentos também tão sofisticados que precisavam ser criados por outros que não seus usuários.  Alguém produzia os instrumentos necessários à fabricação das ferramentas usadas pelos artesãos para produzir os utensílios usados pela população comum.

Com o surgimento do automatismo, mais uma etapa de distanciamento.   Num outro momento, instrumentos que em lugar de substituir a força humana guardavam em si a síntese de um conhecimento começaram a aparecer, como a régua de cálculo que permitia a extração de raízes cúbicas, recurso necessário para o projeto de cônicas e curvas superiores usadas no projeto do automatismo de retesamento do arco das catapultas na Grécia antiga.  Foi necessário o desenvolvimento de conhecimento específico para que tais instrumentos surgissem.  A compreensão de seu funcionamento e de suas vantagens só assim era possível.  Conhecimento avançado, ele afastava ainda mais os instrumentos dos seus usuários.

A produção de alguns materiais e ferramentas sofisticados chegou a um tal volume que era necessário desenvolver-se um projeto para as ferramentas, outro para os instrumentos de sua produção, pesquisas sobre os materiais e sobre formas de produção.  Criam-se, então, ferramentas para extrair o material a ser empregado na fabricação de máquinas, que produzirão as ferramentas, que permitem o desenvolvimento de projetos de instrumentos, que... Enfim, uma lista interminável de intermediários. 

Avançando mais no tempo encontramos o momento em que aquele a quem pertence à fábrica de ferramentas já não é mais conhecedor do ofício, mas o capitalista que agrupa, sob o mesmo teto, ex-artesãos, suas esposas e filhos.  O dono do negócio não domina a forma de produção.  Contrata para isso engenheiros que estudam os movimentos dos operários com vistas a aumentar o rendimento do trabalho.  O uso de ferramentas e instrumentos de trabalho passa a ser tão fragmentada que pessoas sem qualquer experiência ou conhecimento podem ser rapidamente treinadas a fazer, por um salário inferior, uma fração do que fazia antes o operário amadurecido pelos anos.  O usuário passa a depender da gerência de métodos para saber com que mão pegar a ferramenta, que movimento fazer e em quanto tempo.  

Em seu turno, as máquinas e ferramentas de trabalho, devido à sua sofisticação, passaram a precisar cada vez mais de atenções.  Eram máquinas “inteligentes”, já guardavam em seu bojo mais do que a capacidade de substituir a força física humana e realizar automatismos básicos.  Podiam ser programadas a realizar uma série de operações, sendo um bom exemplo delas o tear jackard.  Essa sofisticação forçou o surgimento de uma longa cadeia de fornecedores, projetistas, fabricantes de peças, preparadores, ajustadores e pessoal de manutenção, o que fazia com que ela, a máquina, custasse caro, fosse assunto para especialistas.  Como seu usuário não sabia mais nada sobre ela, qualquer disfuncionamento exigia a parada da máquina, cessão da produção e chamada do encarregado.  Mais um degrau no distanciamento.

Embora tenha havido movimentos no sentido de devolver, mesmo que timidamente, algum controle ao operário (The IBM story, in: The management of worker and work), o processo de automatização da produção continuava a se sofisticar, trazendo a cibernética e, em seguida, a máquina informacional.  Reduz-se o número de operários e afasta-se deles, novamente, o conhecimento sobre seu instrumento de trabalho.

A “evolução” dessa máquina e dos meios de produzi-la se deu de acordo com os modelos científicos vigentes em cada época, mas sempre, e por causa deles, seguindo uma tendência inexorável de moldar seus produtores e usuários segundo suas necessidades.  Reproduzia, neles, assim, sua própria lógica e limitações.  O ciclo de implicações (criador - máquina - criador influenciado pela máquina - máquina criada segundo influencia da máquina - etc) levou à “escalada artificial” [1]. Essa escalada leva, em última instância, às raízes da incompatibilidade entre a máquina e o ser humano. Esta incompatibilidade está colocada para todos, mas é percebida mais agudamente por aqueles à margem do processo que nela culminou.  Afastamento e desinformação aumentam os efeitos da incompatibilidade.  Estamos no século em que a escalada artificial tomou impulso como nunca havia acontecido.  É o século da Cibernética.

A Máquina Cibernética

Os problemas existentes na época em que surgiu a Cibernética eram de origem militar.  Sistemas automáticos de mira demandariam a contribuição de neurofisiologistas, matemáticos, engenheiros, etc, reunidos em uma linguagem comum.   Maluf [2], cita Wiener: “problemas de natureza não trivial que escapavam às metodologias particulares das ciências vigentes determinaram a fundação dessa nova área do conhecimento”. 

Existia, então, o reconhecimento de que para desenvolver novos campos científicos, e esse em particular, era necessário buscar os limites dos já conhecidos.  Era necessário formar um tipo de conhecimento interdisciplinar específico, estruturando em uma linguagem comum. 

Essa máquina, capaz de proezas ainda não atingidas, deveria funcionar autonomamente, segundo uma seqüência de decisões lógicas, compreendendo dispositivos para armazenamento, leitura e renovação de dados.  Para que a máquina pudesse realizar as operações lógicas, era necessário que funcionasse como uma somadora comum, mas sobre um sistema binário.  Resumidamente, essa máquina deveria estar inserida no escopo final da Cibernética, compreendendo dois aspectos: a prótese sensorial ou motora e automática, ou seja, uma síntese do ser vivo.  Citando mais uma vez Wiener, Maluf [2] esclarece: “... a prótese sensoriomotora se define pela reposição, através de órgãos artificiais, de funções humanas sensoriais ou motoras... No caso específico da máquina que se estava construindo, era essencial conhecer as condições em que ocorriam as funções humanas, traduzi-las em termos matemáticos e inseri-las dentro da estrutura da própria máquina”.

 Era também necessário determinar-se a lógica com que a máquina deveria operar.  Havia, entretanto, o reconhecimento de que a lógica está determinada pelo limite da mente humana.  Nessa tentativa de reproduzir a lógica do ser vivo, desenvolveram-se três campos, catalogados sob o título de “métodos heurísticos”:

  • A simulação do pensamento humano;
  • A inteligência artificial e;
  • A heurística propriamente dita.

Os métodos heurísticos tinham por objetivo reproduzir os processos humanos de decisão e solução de problemas. 

A máquina cibernética deveria, portanto, servir de extensão da capacidade humana (prótese), lançando mão de recursos lógicos oriundos da mente humana (heurística), processados através de cálculos matemáticos realizados em um sistema binário e lançando mão de dispositivos para armazenamento, leitura e renovação de dados.  Nascia assim, há cinqüenta anos, o computador como conhecemos hoje.

Na mesma medida em que as máquinas pré-clássicas e clássicas se destinam a estender a força física humana, a máquina cibernética destina-se a “estender” a capacidade mental.  Mas na interação entre a concepção da máquina e seu resultado, a máquina passa a servir de modelo e assim a interferir na concepção de mundo de seu criador.  Existe um forte vínculo entre nossos esquemas cognitivos, os tipos de máquina vigentes em determinadas épocas e a concepção humana de modelos de mundo no trabalho e na vida.   Aí reside o risco da reversão desse esquema, quando uma máquina extraordinária passaria a servir como padrão ou modelo para nossas mentes.

Aqui residem as raízes da incompatibilidade.  Essa máquina, inclusive, pode se manifestar de formas diversas, não necessariamente de forma concreta.  É a máquina informacional.  Chegamos, então, ao programa, ao software. 

Estabelecida a reversão, em que a máquina imaginada como extensão da capacidade mental humana se torna modelo de interpretação do mundo, verifica-se a importância do estudo da interação entre essa máquina e o humano.  Mais especificamente, reconhecendo-se a diferença essencial entre a máquina que realiza os cálculos (computador) e a máquina que fornece a lógica desses cálculos (software), estuda-se a interação entre softwares e seus usuários.

Bibliografia

 

[1] MALUF, U. M. M. Epistemologia Artificial, Hegemonia da Máquina, Informatização da Sociedade e seu Impacto sobre o Humano. in: Anais do XXI Congresso Nacional de Informática, 55-62. Rio de Janeiro, SUCESU, 1987.

[2] MALUF, U. M. M. Cibernética e Ergonomia. in: Ergonomia: Pesquisa e prática, Minas Gerais, Brasil. Fórum de Debates, 1984.

[3] MALUF, U.M.M. A Máquina Informacional com Realização Tecnológica do Isomorfismo entre a Lógica da Natureza e a Lógica dos Circuitos. in: Anais do XVI Congresso Nacional de Informática, 577-584. Rio de Janeiro, Sucesu, 1988.